Alunos da USP ainda têm dúvidas sobre a carreira escolhida

Depois de passar pelo exame vestibular da USP, considerado um dos mais difíceis do País, alguns estudantes vivem momentos de dúvidas e angústias em relação à carreira escolhida. É o que mostra uma pesquisa realizada com 115 alunos ingressantes da instituição. A tese A crise com o curso superior na realidade brasileira contemporânea: análise das demandas trazidas ao núcleo de orientação profissional da USP, de autoria da psicóloga Yara Malki, traz uma análise dos principais motivos que geram as dúvidas e inseguranças em relação às escolhas e aponta para a necessidade de as instituições, públicas e privadas, constituírem centros de carreiras para orientação dos estudantes.

A pesquisa foi defendida em maio deste ano no Instituto de Psicologia (IP) da USP e teve como base a análise de 115 fichas e 58 relatórios de atendimentos realizados entre 2007 e 2012, no Núcleo de Orientação Profissional (NOP), ligado ao Laboratório de Estudos sobre o Trabalho e Orientação Profissional (LABOR) do IP, onde Yara atua.

Segundo a psicóloga, o processo de escolha mal conduzido pode estar ligado a uma característica dos jovens nos dias atuais. “São muitos os motivos que os levam a se precipitar na escolha. Acredito que o ‘imediatismo’ seja um dos principais”, aponta a pesquisadora.

No início dos cursos

A pesquisa detectou que entre os alunos “insatisfeitos ou hesitantes” em relação às suas escolhas 23,2% cursavam ainda o primeiro semestre. Outros 10,7% e 14,3% cursavam os segundos e terceiros semestres, respectivamente. “Neste universo, a maioria é de jovens com 18 e 19 anos, representando 30,5% da amostra. Os ingressantes na faixa dos 20 aos 22 anos representaram 13%”, contabiliza Yara. Ela lembra que entre os dados analisados, não houve registro de estudantes com idade acima de 31 anos. Segundo ela, a dúvida sobre a carreira é comum tanto no ensino superior público quanto no privado.

Em relação às áreas de estudos, 51,8% cursavam humanidades, enquanto 27,7% cursavam exatas. Outros 20,5% cursavam as áreas de biológicas.

Yara também analisou a questão da origem dos estudantes, sendo que 72% deles residiam na capital e na grande São Paulo. “Outros 28% vieram do interior e do litoral paulista e de outros estados”, lembra.

Os motivos

Muitos foram os motivos que levaram os alunos a procurarem o serviço. Yara os dividiu em oito “grupos de motivos” que, segundo ela, congregam as principais razões que levam à insegurança. “O principal deles está ligado à escolha inicial que muitas vezes foi feita com base na opinião de pais e amigos, em estereótipos da profissão ou ainda em pouquíssimo autoconhecimento”, destaca a pesquisadora. Há ainda a escolha que ela chama de estratégica, ou seja, quando o aluno opta por um curso próximo ao que ele gostaria. “Se um aluno acredita que seja difícil cursar Medicina pode optar por Enfermagem, por exemplo. Daí, posteriormente, poderá vir a dúvida e a insatisfação”.

Outro grupo de motivos que ela destaca são as questões emocionais, como as crises pessoais que alguns demonstraram. Há também aqueles que procuraram o serviço por motivos ligados ao próprio curso. “O aluno USP, em geral, é preocupado com o rendimento escolar que, em algumas situações, consideraram baixo”.

Houve também motivações ligadas à profissionalização, adaptação e rotinas da universidade, ao vínculo com a USP, ao planejamento da carreira e a razões financeiras. “Fica evidente a importância de ações como as semanas de recepção aos calouros”, ressalta. Para ela, as iniciativas não ligadas ao trote violento podem ser fundamentais num processo de integração dos novos estudantes.

De acordo com a psicóloga, a pesquisa abre espaço para a reflexão sobre as necessidades dos alunos que chegam à universidade. “Nosso estudo, certamente, servirá de base para outros que possam quantificar melhor tal situação”, acredita. Além disso, como ela destaca, chama a atenção para a importância que deve ser dada a um planejamento correto à carreira: “Hoje em dia, não basta ter um diploma universitário, é necessário fazer dele um projeto de carreira”, completa.

O NOP da USP funciona desde 2004 e atende hoje cerca de 30 alunos anualmente. A equipe de atendimento do serviço é composta de seis psicólogos. “Seria interessante a ampliação desta trabalho aqui na universidade”, acredita Yara. “A meta da equipe é aumentar o número de atendimentos.”

 

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