Revistas mostram efeitos do ambiente urbano na saúde

Duas publicações recentes da USP ampliam o debate sobre os efeitos das metrópoles na saúde pública. Uma delas é a Revista USP, publicada pela Superintendência de Comunicação Social (SCS), que, na sua edição número 107, traz o dossiê “Saúde Urbana”. Esse dossiê apresenta um panorama da saúde nas grandes metrópoles e dos desafios a serem enfrentados para garantir a qualidade de vida nelas. A outra publicação é a revista Estudos Avançados, número 86, do Instituto de Estudos Avançados (IEA), que publica o dossiê “Metrópoles e Saúde”, com artigos sobre temas como poluição atmosférica, carência de verde, transporte público insuficiente, más condições de habitação como fator de risco para a população e difusão de doenças infecciosas.

Organizado pelo professor Eliseu Alves Waldman, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, o dossiê “Saúde Urbana”, da Revista USP, reúne artigos de especialistas que possibilitam ao leitor compreender as diferentes dimensões que envolvem o tema.

Na apresentação do dossiê, Waldman observa que o crescimento rápido e não planejado dos centros urbanos dos países de baixo e médio desenvolvimento está associado a pobreza, desemprego, moradias inadequadas, aglomeração, doenças transmitidas por vetores, aumento de tráfego de veículos, degradação e poluição ambiental. “Por sua vez, a infraestrutura urbana é insuficiente para responder às demandas de saneamento, educação e saúde dessas populações.”

Capa da Revista USP nº 107

Capa da Revista USP nº 107

Uma falta de infraestrutura grave, que o dossiê pontua e alerta. “Tal panorama destaca a diversidade e a complexidade das questões relativas à saúde nas cidades como uma prioridade em políticas públicas em todo o globo, ficando claro também que o equacionamento adequado de soluções para tais problemas deve envolver vários setores, especialmente saúde, ambiente, habitação, energia, transporte e planejamento urbano”, acrescenta Waldman.

O professor destaca a preocupante incidência do zika vírus, transmitido pelo mesmo mosquito vetor da dengue e da chikungunya, o Aedes aegypti, presente especialmente em áreas urbanas. Situa o Brasil como o epicentro de uma pandemia que já atingiu a Oceania, vários países latino-americanos e do Caribe e ainda Cabo Verde, na África ocidental.

“Sua presença no Brasil foi confirmada em maio de 2015 e, poucos meses depois, o vírus já havia se disseminado pela maioria dos Estados brasileiros e boa parte dos países da América Latina e Caribe. Vale lembrar que tal fato ocorreu pouco mais de um ano após a emergência do vírus chikungunya na mesma região.”

Um dos artigos publicados no dossiê “Metrópoles e Saúde”, da revista Estudos Avançados, é “Como as cidades podem favorecer ou dificultar a promoção da saúde de seus moradores?”, de Paulo Hilário Nascimento Saldiva, professor do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, escrito em parceria com Laís Fajersztajn e Mariana Veras. No texto, eles mostram que morar próximo a um parque pode reduzir o risco de infarto do miocárdio, enquanto a exposição à poluição do ar ambiente aumenta esse risco.

Capa da revista Estudos Avançados nº 86

Capa da revista Estudos Avançados nº 86

Segundo os autores, evidências associam a exposição crônica ao ruído do tráfego ao ganho de peso. “Em 2014, mais de mil pessoas morreram no trânsito de São Paulo. No entanto, recomendar que as pessoas fiquem em casa com as janelas fechadas é inviável. A adoção de hábitos saudáveis é favorecida ou dificultada pelo ambiente construído e pelo modo como a cidade está organizada. Além disso, alguns fatores de risco para doenças, como a exposição à poluição do ar, vão além de escolhas individuais e dependem, em grande parte, de ações governamentais”, enfatizam.

No mesmo dossiê de Estudos Avançados, o artigo “Saúde nas metrópoles – Doenças infecciosas”, de Aluisio Cotrim Segurado, professor da Faculdade de Medicina da USP, Alex Jones Cassenote, doutorando dessa mesma faculdade, e Expedito de Albuquerque Luna, professor do Instituto de Medicina Tropical da USP, analisa a tendência de morbidade e mortalidade associadas a agravos infecciosos nas 17 regiões metropolitanas brasileiras entre 2001 e 2015 e conclui que algumas doenças infecciosas de notificação compulsória seguem representando importantes causas de morbidade e mortalidade nas metrópoles brasileiras no período analisado.

Dentre os agravos infecciosos incluem-se doenças de transmissão respiratória, tais como a hanseníase e a tuberculose, infecções sexualmente transmissíveis, doenças relacionadas ao contato com água, como a leptospirose, e infecções transmitidas por insetos vetores (dengue). “Nessas enfermidades, o contato próximo ou mesmo íntimo entre pessoas infectadas e suscetíveis, ou ainda condições externas facilitadoras da transmissão, tais como a ocorrência de enchentes ou a proliferação de insetos no ambiente peri e intradomiciliar, parecem contribuir para a persistência da circulação de seus agentes causais”, analisam. 

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